HomeNeurociênciaO que os neurônios espelho têm a dizer sobre o Autismo?

O que os neurônios espelho têm a dizer sobre o Autismo?

2 de maio de 2022

Resenha do artigo “Mirror neurons: from discovery to autism” de Giacomo Rizzolatti e Maddalena Fabbri-Destro (2010).

O autismo, um comprometimento global, tem-se cercado de muitas investigações no propósito de conceder as melhores soluções ou reduções dos danos aos indivíduos portadores desse transtorno de espectro. Os números dos diagnósticos aumentam ao passar da história, tornando-se um contexto preocupante para ambos os atores: comunidade científica e à sociedade em geral. Com o avanço das descobertas experimentais, observa-se a correlação dos chamados ‘neurônios espelho’ nas implicações sintomáticas do autismo. O artigo ‘Mirror neurons: from Discovery to autism’, portanto, tornam-se evidentes essas implicações.

Além de os neurônios motores se ativarem na realização de um comportamento motor, há a ativação de neurônios quando uma ação semelhante é executada por outro sujeito, incorrendo na conceituação conhecida como compreensão. Vale ressaltar uma segunda colocação dos autores sobre esses neurônios, onde os mesmo atuariam na previsão de ações motoras ainda não completadas, ou seja, antes mesmo de ser completa essa ação motora, os neurônios são ativados para tentar supor a ação final.

O artigo “Mirror neurons: from Discovery to autism” verifica o envolvimento e localização de áreas cerebrais como os sulcos dorsal e ventral na ativação dos neurônios espelho, sendo o primeiro sulco para a observação de ações simbólicas ou, como em uma mímica, sem significados, enquanto o segundo sulco está para a ação motora propriamente dita. Ainda demonstram que o giro supramarginal anterior esquerdo que é ativado nos humanos não foi visto em macacos, concluindo-se que essa área é correlacionada a uma nova na aquisição humana decorrida a evolução das espécies.

Realizados muitos experimentos, os autores do artigo demonstram e corroboram a ativação do córtex motor também para ações observacionais, tanto quanto para reais ações motoras. Esses estudos se utilizam de técnicas com imagens do encéfalo e das descargas elétricas no cérebro, tais como: Ressonância magnética (MRI); Ressonância magnética funcional (fMRI); Eletroencefalograma (EEG); Magnetoencefalograma (MEG); Tomografia por emissão de pósitrons (PET). Por meio deles é possível verificar a intensa ativação em uma dada área no cérebro.

No entanto, as ativações dos neurônios espelho não ocorrem somente por observar outrem, mas por observação de uma ação que já está presente no repertório do observador, ou seja, pertencente à mesma espécie. Isso evidencia que as ativações dos neurônios espelhos têm a ver com o grau de repertório da ação observada. Além disso, a ativação dos neurônios motores está associada à aprendizagem, pois quando alguns participantes de um experimento foram submetidos a observarem e executarem ações simultaneamente percebeu-se através da estimulação magnética transcraniana uma potencialização da ativação (TMS).

Nesse sentido, o artigo visa o entendimento das relações dos neurônios espelho, circundando todo o assunto com base em experimentos científicos. A localização dos neurônios espelho se associa ao conteúdo referente da ação observada, onde, quando envolvidas com conteúdo emocionais, ativam-se áreas como a ínsula e giro do cíngulo. Logo, problemáticas surgem quanto à função desses neurônios, como no caso da imitação dos mesmos comportamentos observados, vendo-se controvérsias por faltarem evidências que corroborem esse propósito em específico.

Eles estão mais para uma tentativa de antecipar as ações motoras observadas que propriamente abrir espaço para imitá-las, pois, como resultado de um estudo em indivíduos sem os braços e mãos, além de voluntários aplásicos, houve a ativação dos neurônios espelho. Com isso, os autores colocam em questão os indivíduos com espectro autista, onde por haver prejuízos na comunicação, linguagem, na capacidade de entender e sentir o outro associam-na ao comprometimento do mecanismo dos neurônios espelho, pois foi verificado que a ativação desses neurônios é inversamente proporcional ao grau do espectro.

Os autores indicam um dano no funcionamento em rede dos neurônios espelho, incorrendo na não unificação e organização das intenções motoras específicas nos indivíduos com autismo. Os estudos indicam um silenciamento na observação dessas ações realizadas por outrem. Dessa forma, o artigo concede muitas descobertas com vistas à ratificação ou retificação dos postulados sobre as funções das partes cerebrais. Para esta leitura, necessita-se de conhecimentos prévios acerca de neuroanatomia, fisiologia e áreas afins, além da língua inglesa. Para tanto, direciona-se aos graduandos e profissionais do conhecimento neurocientífico.

Definindo Conceitos Importantes

Autismo: Transtorno do neurodesenvolvimento onde as manifestações que caracterizam seu contexto sintomático são basicamente comportamentais e qualitativas, relacionadas à dificuldade na interação social e na comunicação.

Neurônios espelho: Neurônios envolvidos nos processos que empregam a imitação como recurso de aprendizagem motora.

Sulco: Depressões que delimitam os giros ou circunvoluções cerebrais.

Ínsula: Envolvida com a regulação autonômica, isto é, visceral, devido às relações que mantém com os núcleos sensitivos viscerais.

Giro do Cíngulo: Envolvido com a integração das sensações olfativas e visuais, bem como com as reações emocionais à dor e a regulação do comportamento agressivo.

Referências Bibliográficas

CORTEZ, Célia Martins; SILVA, Dilson. Fisiologia aplicada à psicologia. 1° Ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008.

FUENTES, Daniel; MALLOY-DINIZ, Leandro F; CAMARGO, Candida Helena Pires de; COSENZA, Ramon M. Neuropsicologia: teoria e prática. 2° Ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios? conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Editora Atheneu, 2010.

MACHADO, Ângelo. Neuroanatomia Funcional. 2. Ed. Rio de Janeiro: Editora Atheneu, 2005.

RIZZOLATTI, Giacomo; FABBRI-DESTRO, Maddalena. Mirror neurons: from Discovery to autism. Experimental Brain Research. No. 200, P. 223-237. 2010. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s00221-009-2002-3.

Ficha Técnica

Texto da resenha: Ramon Santiago do Nascimento é aluno de Psicologia da Universidade Veiga de Almeida (UVA). Contato: ramonsantiago352@gmail.com

Edição e revisão técnica: Luã Teixeira Guapyassú Câmara / Danielle Paes Branco

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