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O que nos diferencia das máquinas?

2 de maio de 2022

Resenha do artigo “Reflexões sobre a interação cérebro-máquina: muito além dos neurônios” de Daniel Boari Coelho (2005)

“Reflexões sobre a interação cérebro-máquina: muito além dos neurônios”, artigo de Daniel Boari Coelho, procura contestar e abordar questões sobre o que nos torna diferentes das máquinas por meio de tópicos que buscam discutir, principalmente, os pensamentos e emoções. Diante disso, busca-se especificar os aspectos principais do sistema nervoso comparando-o a uma máquina, levando em conta a gama de neurônios trabalhando de maneira complexa e em conjunto, os quais emitem sinais por seu sistema eletroquímico. Nesse contexto, o principal questionamento que se buscou responder no artigo surge já na introdução: há diferença entre o cérebro e uma máquina?

Tendo como exemplo o aparelho construído no Salk Institute1, o qual possui uma avançada tecnologia que o possibilita verbalizar textos impressos na língua inglesa de maneira precisa, o autor procura responder a questão tendo como constructo a linguagem. Sob esse aspecto, pode-se relacionar e comparar essa máquina ao cérebro humano, já que seus componentes estão distribuídos em níveis de processamento como ler, um nível intermediário e um último de saída, o qual é responsável pela emissão de som. O cérebro, comparado pelo autor como um castelo de três andares, possui sua estrutura composta pelo lobo frontal (córtex motor), tronco encefálico e medula espinhal. A partir disso, é colocado que as características apresentadas pelo cérebro humano nos levam a compará-lo com uma máquina, em que os neurônios podem ser comparados a um “hardware” e as sinapses a um “software”, formando uma estrutura integrada, ilustrada a partir da estrutura cerebral e dos neurônios. A comunicação existente entre os neurônios possui características semelhantes ao armazenamento existente nos computadores.

Diante disso, ressalta-se que, embora um neurônio tenha a capacidade para integrar sinais, assim como estruturas presentes em computadores, não há nada que ateste que tais funções sejam equivalentes, no entanto, torna a questão interessante, já que ambos sistemas são capazes de realizarem operações complexas. Nesse viés, sabe-se que as máquinas possuem velocidade de execução maior que o cérebro humano, porém possuem menor tempo de uso. Em contrapartida, o cérebro humano possui seu tempo de vida o mesmo do seu usuário. A partir disso, o artigo questiona o que, de fato, distancia nosso cérebro humano de ser comparado com uma máquina. Será a vida? O artigo, neste ponto, propõe refletir sobre a definição da vida, incluindo questões como a do princípio vital, e é justamente tal definição que distingue o ser humano de uma máquina.

Caminhando para o fim, o artigo nos introduz a um novo tópico que busca dissertar a respeito do amor ao englobar uma visão geral acerca das emoções e sentimentos. A emoção, conforme exposto no artigo segundo Damásio, é uma alteração corporal ou mental, proveniente de certo conteúdo da mente, uma percepção acerca dos nossos estados corporais. Já o amor, de acordo com dados científicos, é a experiência do homem mais potente, cujos sistemas neurológicos estão amplamente envolvidos. Dessa maneira, sabe-se que o amor possui a ação de ativar regiões cerebrais que são ricas em dopamina. Todo o corpo está envolvido na funcionalidade do amor, o qual é cheio de vida e do princípio vital, diferente das máquinas.

Tendo como base a comunicação química entre os neurônios, sabemos que os processos neurais são rápidos e exatos, fato que os fazem semelhantes às máquinas e que são resultados do processo evolutivo. Então, discorre-se sobre as consequências da evolução no cérebro humano, utilizando, como exemplo, as reações de luta e fuga presentes no reino animal. Segundo o autor, embora nossos processos neuronais sejam frutos de um processo evolutivo que nos permitiram sobreviver, rápidas e acessíveis decisões são tomadas e, muitas vezes, caracterizadas como insensatas. Nosso cérebro, diante de tantas informações presentes ao nosso redor, capta aquelas que, embora não sejam as melhores, são as mais úteis para a adaptação e sobrevivência.

Por último, o artigo propõe a discussão do instinto, mais um componente que nos diferencia das máquinas, caracterizado por ser parte da “camada” mais profunda do psiquismo, o inconsciente, e por ser um resultado da aprendizagem. Sabe-se que a área cerebral responsável pelos atos instintivos não está ligada a área da intelectualidade, o que faz com que o instinto seja tido como automático. Sob essa perspectiva, nos mamíferos o sistema límbico aparece com a possibilidade do raciocínio, e permite com que os seres humanos intensifiquem sua inteligência e tenha o senso de julgamento entre o certo e o errado. Além disso, a intuição também se sobressai, como sendo uma grande diferença entre as máquinas e os seres humanos. Embora sejam hábeis na matemática, os computadores falham no aspecto intuitivo.

O artigo, por fim, traz em sua conclusão as diversas discussões existentes a respeito da inteligência relacionadas ao aspecto cerebral. Seria o tamanho do cérebro que ditaria o nível de inteligência? A massa? As circunvoluções? Não se sabe ao certo, no entanto, o que não pode ser negado ou questionado, é a importância desse órgão para a vida.

Referências Bibliográficas

BOARI COELHO, Daniel. Reflexões sobre a interação cérebro-máquina: muito além dos neurônios. Ciênc. cogn., Rio de Janeiro , v. 6, n. 1, p. 133-141, nov. 2005 . Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-58212005000300015&lng=pt&nrm=iso. Acesso em 25 mar. 2022.

Definindo Conceitos Importantes

Hardware: Elementos físicos que fazem parte dos componentes eletrônicos do computador, como circuitos de fios e luz, placas, etc. 
Sinapses: Comunicação existente entre os neurônios no sistema nervoso central que podem ser elétricas ou químicas. 
Software: Sequência de instruções cujo computador exerce a função de interpretá-las para que possam exercer tarefas específicas.

Ficha Técnica

Texto da resenha: Raphaela Pinto Soares é aluna da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Contato: raphaelapsoaresjc@gmail.com

Edição e revisão técnica: Luã Teixeira Guapyassú Câmara / Danielle Paes Branco

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