HomeNeurociênciaA música e o cérebro

A música e o cérebro

2 de maio de 2022

Resenha do artigo “A música por uma óptica neurocientífica” de Viviane Cristina da Rocha e Paulo Sérgio Boggio (2013).

A música nos toca tanto quanto os músicos o fazem com seus instrumentos. A neurociência, campo de estudo vasto sobre as estruturas que compõe os sistemas do corpo, traz melodias para nossos ouvidos em forma de conhecimento ao investigar o relacionamento da música com o processo evolutivo do sistema nervoso central. Em todas as culturas, disponível em todas as espécies em suas diferentes formas, a música tem se mostrado mais que sons melódicos com o propósito de apenas se fazer ouvir. Ela tanto está presente em nosso cotidiano como o modifica. Será que hoje viveríamos sem a sua companhia, em seu amplo sentido?

O artigo “A música por uma óptica neurocientífica” explora a relação da música com o sistema nervoso para a verificação de áreas que se mostram responsáveis pelo fenômeno e, com isso, possa-se inferir hipóteses sobre a sua função. Vale lembrar que sendo a estrutura estimulada pela música, notam-se diferenças no seu volume quando comparados músicos e não músicos. Depreende-se que tanto a música quanto a linguagem são afins no que se refere às estruturas cerebrais e suas ativações. No entanto, os hemisférios responsáveis por cada uma delas se difere, sendo o direito para o processamento musical e o esquerdo se envolvendo com a linguagem.

O artigo constata que o córtex auditivo e motor estão imbricados em ambos os processos, musical e de linguagem. Além disso, em relação aos músicos, tanto tocar quanto ouvir música sendo tocada por terceiros desencadeia ativação do córtex auditivo e motor. Os autores referenciam também o sistema límbico na relação e participação do processamento musical, sistema esse primitivo. Eles demonstram a importância desse estudo e suas possíveis repercussões como no uso da música para a estimulação de movimentos mais fluentes em pacientes acometidos com Parkinson

Nesse sentido, entendimentos acerca dessas estruturas envolvidas na música e linguagem advêm de maneira indireta, ou seja, não somente pela observação em pacientes saudáveis, mas, principalmente, através de pacientes acometidos por lesões e alterações: Parkinson, Amusia, Afasia, Dislexia e Autismo, por exemplo. Mas, ainda persiste na neurociência a questão de integração das informações que chegam às áreas corticais. O envolvimento de muitas partes da estrutura cerebral está relacionado à complexidade do padrão da música e por isso ocorre em níveis hierárquicos.

Pouco se sabe sobre a atuação dos neurônios espelhos, mas o artigo dá algumas luzes sobre sua atuação na percepção de emoções relacionadas à música e no aprendizado por imitação. Ainda importante é a consideração que fazem das regiões homólogas nos hemisférios para tratamentos e terapias que reorganiza, com a neuroplasticidade, as regiões necessárias à compensação das que sofreram lesões. O assunto se apresenta tão vasto e ligado aos muitos processos cerebrais que os autores dividem o artigo em partes relacionadas a esses processos: linguagem, movimento, emoções, memória, dentre outras.

Os suportes que a música pode conceder às diversas áreas na sociedade como a educação, terapias de reabilitação, entre outras, apoiam-se nas evidências que a neurociência traz e os autores mencionam no artigo paulatinamente. Entretanto, os mesmo deixam claro que isso deve ser aprofundado com mais estudos e investigações a fim de ratificar as informações e se proporem tratamentos assertivos na recuperação ou compensação das áreas cerebrais envolvidas em algumas doenças, transtornos e/ou distúrbios. O artigo se revela de fácil compreensão, propondo-se aos estudiosos, mas também aos leigos.

Definindo Conceitos Importantes

Hemisférios: Fazem parte do Telencéfalo. Pode-se dividir em hemisfério direito e esquerdo. A linguagem é a mais lateralizada das funções, já que a maior parte de seus mecanismos é operada pelo hemisfério esquerdo. A percepção musical, a identificação genérica de pessoas e objetos, a identificação de relações espaciais entre os objetos, e outras funções são características do hemisfério direito.

Córtex auditivo: Na face lateral do lobo temporal se encontra o centro cortical auditivo. Nesta há dois grandes sulcos que separam três giros (giro temporal superior, médio e inferior).

Córtex motor: O controle da função motora do corpo humano é principalmente realizado pelo córtex cerebral, mais especificamente pelo córtex motor primário (ou área motora primária) e pela área pré-motora.

Sistema límbico: Conjunto de regiões associadas – envolvido com os vários aspectos das emoções (o sentimento, as reações comportamentais, os ajustes fisiológicos). definido como um conjunto de regiões localizadas, a maioria delas, na face medial dos hemisférios e no diencéfalo.

Neurônios espelho: Neurônios envolvidos nos processos que empregam a imitação como recurso de aprendizagem motora.

Neuroplasticidade: A capacidade de adaptação do sistema nervoso, especialmente a dos neurônios, às mudanças nas condições do ambiente que ocorrem no dia a dia da vida dos indivíduos.

Referências Bibliográficas

CORTEZ, Célia Martins; SILVA, Dilson. Fisiologia aplicada à psicologia. 1° Ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008.

LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios? : conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Editora Atheneu, 2010.

ROCHA, Viviane Cristina da; BOGGIO, Paulo Sérgio. A música por uma óptica neurocientífica. Per Musi. No. 27, 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pm/a/4MYkTmWFfsG4P9jfRMdmh4G/abstract/?lang=pt.

Ficha Técnica

Texto da resenha: Ramon Santiago do Nascimento é aluno de Psicologia da Universidade Veiga de Almeida (UVA). Contato: ramonsantiago352@gmail.com

Edição e revisão técnica: Luã Teixeira Guapyassú Câmara / Danielle Paes Branco

Comentários

0 Comentários
Feedbacks
Veja todos os comentários

Parceiros

Neurostudent
infosPharma
Aprender Educacional